Alberto é sobrevivente da guerra do Peloponeso. Perdeu a família toda na guerra e resolveu vir de navio pro Brasil, pra tentar a vida e na possibilidade de deixar o tendão pra trás, o que não aconteceu, porque Alberto é disléxico e ele acabou parando no país do tesão. Tudo isso numa longínqua década de 50.
Como o dinheiro só deu até a Bahia, ele foi quicado pra fora em Salvador. O jovem e garboso rapaz experimentou vatapá. Mal sabia ele que seus antecessores já eram viciados na guloseima. A partir daí, Alberto foi estufando e estufando, porém sem perder a ternura. Quando começaram a apelidá-lo de Bolacha, Alberto decidiu que era hora de viajar para a capital do Brasil, já que na Bahia é tudo sobre mar e Alberto não tem vocação para pescador.
No Rio de Janeiro entrou numa fábrica atacadista de bolsas. Escolheu as mais bonitas por consignação e vendeu todas no mesmo dia. Voltou pra mais e o vendedor, pasmo, lhe perguntou: “como?” E a resposta veio de pronto: “vendo bolsinhas, bolsões e bol@&$setas”.
E assim Alberto foi fazendo fama e fortuna e convidado pros salões mais chiques da sociedade, sempre relembrando esse primeiro dia no Rio.
Numa dessas festas deslumbrantes conheceu Sofia.
Sofia é filha de um grande industrial brasileiro. "Industrial" é maneira de dizer. O pai tinha um secos e molhados na Baixada Fluminense e, quando decidiram aterrar o Flamengo, seu José foi o primeiro a aparecer com um caminhão de areia. De caminhão em caminhão, ergueu o aterro e fez Brasília em 5 anos, junto com o seu patrimônio, que em 5 anos rendeu mais do que em 50.
A filha de seu José é a Sofia. Já aos 10, vendia ovos na mercearia. Aos 18, já princesa milionária, não largou os ovos. Ao contrário, achou ovo até em galo.
Mas Sofia não tem rodeios e seu José tem orgulho da filha valente. A mãe, nem tanto.
Ninguém segura Sofia, e ela também se entedia rápido nos bailes do grand monde carioca.
Aos 21, viu aparecer na festa o Bolacha, quer dizer, o Alberto. E ouviu, em primeira mão, a história das bolsas: bolsões, bolsinhas e… não posso mais dizer em horário nobre.
E agarrou o Alberto porque o Alberto era diferente. Era esperto e rápido, como também ela.
Sofia e Alberto têm hoje em torno de 50 anos (esquece a cronologia).
São vivos, muito vivos. São parceiros no negócio e um complementa o outro. Alberto é mais suave; Sofia, mais assertiva. A cena entre dona Odete e Freitas é baseada numa história sobre o jeito de Sofia de trabalhar: 'Freitas, eu pensei que você gostasse de sofrer'.
Ela é chique, sabe se vestir e é inteligente. É mais interessada do que erudita e, com os anos, criou uma bagagem cultural. Sabe falar com o escritor que está na moda, o empresário do setor siderúrgico e a faxineira. Só não tem paciência para socialite e influencer.
Tem um apetite sexual voraz. Alberto sofre e nem sempre dá conta.
Eles têm um casal de filhos, menino e menina, já na casa dos vinte e tantos anos.
Depois conto mais.

